Comportamento e convivência
Por que é tão difícil aceitar quem pensa diferente?
O que a psicologia, a neurociência e a ciência política explicam sobre as brigas de família, os grupos de WhatsApp silenciados e as amizades que esfriam em época de eleição.
Um almoço de domingo
Cena ilustrativa, construída a partir de situações comuns. Os personagens não são pessoas reais.
Era o aniversário da avó. Mesa grande, panela de feijão ainda fumegando, onze pessoas apertadas em volta. Havia vinte anos que aquele almoço era o lugar onde Helena e o primo Rodrigo riam das mesmas piadas, lembravam das mesmas férias na casa de praia e dividiam o último pedaço de pudim sem cerimônia.
Naquele domingo, alguém comentou uma notícia sobre a eleição. Rodrigo respondeu. Helena respondeu de volta. Em menos de dois minutos a conversa deixou de ser sobre candidatos e passou a ser sobre quem eles eram como pessoas. Uma frase atravessou a mesa e ninguém conseguiu buscá-la de volta.
A avó tentou mudar de assunto e ofereceu café. Helena foi embora antes da sobremesa. Rodrigo silenciou o grupo da família. Na semana seguinte, nenhum dos dois sabia dizer exatamente o que o outro tinha falado de tão grave. Sabiam apenas que tinham se sentido atacados.
Se você já viveu algo parecido, não está sozinha nem sozinho. Isso não faz de você uma pessoa intolerante, nem da sua família uma família frágil. Diz algo sobre o jeito como o cérebro humano funciona quando o assunto toca naquilo que somos. Vamos entender esse jeito, com base no que a ciência já mediu.
É a parcela de brasileiros que já rompeu ou reduziu o convívio com amigos ou familiares por divergências políticas, segundo o levantamento Panorama Eleitoral Brasileiro, do Instituto Informa, feito entre 21 de maio e 7 de junho de 2026 com 2.419 pessoas e margem de erro de 2 pontos. Note que “reduzir o convívio” é bem mais amplo do que cortar relações de vez. Como toda pesquisa de opinião, ela é um retrato do momento e depende de como as perguntas foram feitas.
Quando a opinião vira parte de quem eu sou
Base: Tajfel, 1971 | Iyengar e Westwood, 2015
Em 1971, o psicólogo Henri Tajfel e colegas realizaram um experimento que ficou famoso. Eles separaram adolescentes em grupos usando critérios triviais, como a suposta preferência por um pintor ou outro, e depois pediram que distribuíssem pontos entre os participantes. Mesmo sem conhecer ninguém, os jovens tendiam a favorecer quem estava no próprio grupo. A simples sensação de pertencer já bastava. Ninguém precisou de uma história de rivalidade.
Décadas de pesquisa na linha da teoria da identidade social desenvolveram essa ideia. Quando um grupo passa a fazer parte da nossa autoimagem, críticas ao grupo são sentidas como críticas a nós. A política tem uma força extra nesse processo, porque junta valores, comunidade, família, religião e a sensação de estar do lado certo.
Os cientistas políticos Shanto Iyengar e Sean Westwood mediram esse efeito em experimentos nos Estados Unidos, com testes implícitos e tarefas de comportamento. Concluíram que a hostilidade entre partidários é em boa parte automática e que, nos cenários testados, a discriminação por filiação política superou a discriminação por raça. Eles também apontam um fator social: existe pouca norma que desencoraje alguém de falar mal de quem vota diferente, ao contrário do que ocorre com outros tipos de preconceito.
Os pesquisadores chamam esse fenômeno de polarização afetiva. A divergência deixa de tratar de propostas e passa a tratar de sentimento, como desconfiança e desprezo, e da ideia de que o outro lado é moralmente pior. É por isso que uma conversa sobre imposto, segurança ou educação pode terminar com alguém chorando na cozinha.
Quando discordar de uma ideia parece ameaçar quem eu sou, o corpo se defende antes de o argumento chegar.
O que acontece no corpo quando alguém contesta o que você acredita
Base: Kaplan, Gimbel e Harris, 2016 | Haidt, 2012
Em 2016, o neurocientista Jonas Kaplan e colegas colocaram 40 pessoas que se descreviam como liberais dentro de um aparelho de ressonância magnética. Elas leram afirmações políticas, como as sobre leis de armas, e afirmações sem carga política, como quem inventou a lâmpada. Cada afirmação era seguida de contra-argumentos, e a cada rodada os participantes diziam o quanto ainda acreditavam nela.
Diante da evidência contrária, as pessoas mudaram pouco de ideia sobre política e um pouco mais sobre os temas neutros. No cérebro, a chamada rede de modo padrão, ligada ao pensamento sobre si mesmo, ficou mais ativa quando crenças políticas eram desafiadas. Quem mudou mais de opinião mostrou menos atividade na amígdala e na ínsula, regiões associadas a emoção e à percepção de ameaça.
O estudo é pequeno, com um único perfil de participantes, e a ressonância mostra correlação, não causa. Ele não prova que todos reagimos do mesmo jeito. Mas combina com o que a psicologia observa há tempos. O psicólogo Jonathan Haidt, no livro The Righteous Mind, de 2012, defende que em moral e política as intuições vêm primeiro e o raciocínio chega depois para defendê-las, como um advogado. Por isso um bom argumento, entregue no meio de uma discussão acalorada, quase nunca funciona na hora.
Você conhece mesmo o outro lado?
Base: Ahler e Sood, 2018, Journal of Politics
Existe um fator que piora tudo e quase ninguém percebe. A imagem que fazemos de quem pensa diferente costuma ser uma caricatura. Os pesquisadores Douglas Ahler e Gaurav Sood perguntaram a eleitores americanos que proporção de certos grupos existe dentro de cada partido e compararam as respostas com os números reais. Faça o teste antes de ver o resultado.
O teste das caricaturas
Dados de um estudo com eleitores dos Estados Unidos. Mova o controle até o seu palpite e depois revele a resposta.
Em média, os participantes estimaram que 32% dos eleitores democratas são LGBT, quando o número real era cerca de 6%. Estimaram que 38% dos republicanos ganham mais de 250 mil dólares por ano, quando o número real era cerca de 2%. Os erros apareceram nos dois lados, mas foram maiores quando as pessoas falavam do partido adversário.
O mais importante vem depois. Essas distorções estavam ligadas a sentimentos mais negativos em relação ao outro partido e à crença de que ele é extremo. E, quando os participantes recebiam os números reais, passavam a ver o outro lado como menos extremo e sentiam menos distância social dele.
O estudo é americano. A pergunta que ele deixa vale em qualquer lugar: a imagem que você tem de quem pensa diferente vem de pessoas reais, próximas de você, ou dos vídeos mais chamativos que o seu feed escolheu mostrar?
Inteligência e informação nem sempre protegem
Base: Kahan e colegas, 2017 | Nyhan e Reifler, 2010 | Wood e Porter, 2019
Um raciocínio comum diz que, se as pessoas tivessem mais informação e mais educação, concordariam mais. O jurista e psicólogo Dan Kahan testou essa hipótese em um estudo publicado em 2017. Os participantes receberam uma tabela de dados e precisavam tirar uma conclusão correta a partir dela. Quando os números eram apresentados como resultado de um estudo sobre um creme para uma doença de pele, quem tinha mais habilidade com números acertava mais. Quando exatamente os mesmos números eram apresentados como resultado de um estudo sobre a proibição de armas, as respostas se dividiram por posição política e a precisão caiu.
O dado mais incômodo é que a divisão cresceu entre os participantes mais hábeis com números. Kahan chama esse mecanismo de cognição protetora de identidade. Na prática, a inteligência passa a trabalhar como advogada de defesa do grupo. Isso quer dizer que o problema raramente é a falta de informação do outro lado, e que vale para todos nós, inclusive para quem escreve este texto.
Também é preciso corrigir uma ideia popular. Por muito tempo se disse que corrigir um erro faz a pessoa acreditar ainda mais nele, o chamado efeito backfire, descrito por Brendan Nyhan e Jason Reifler em 2010. Estudos posteriores, como o de Thomas Wood e Ethan Porter, de 2019, com mais de 10 mil participantes e 52 temas, encontraram esse efeito de forma muito rara. A versão mais precisa é que as pessoas resistem a mudar de ideia, mas raramente pioram só porque foram corrigidas.
Redes sociais, bolhas e o preço de falar na tela
Base: Bail e colegas, 2018, PNAS
Uma solução intuitiva seria expor as pessoas a opiniões contrárias, para que vissem que o outro lado tem argumentos. O sociólogo Christopher Bail e sua equipe fizeram exatamente isso. Pagaram mais de 1.500 usuários do Twitter, hoje X, para seguir por um mês um perfil automatizado que compartilhava conteúdo do lado oposto ao seu. O resultado surpreendeu: os republicanos do estudo ficaram mais conservadores, e entre os democratas não houve mudança estatisticamente clara na direção contrária.
O que esse experimento sugere é que ver opiniões contrárias, sozinho, não aproxima ninguém. Ver opiniões contrárias na forma de postagens de desconhecidos, tiradas de contexto, pode até reforçar a trincheira. Isso ajuda a entender por que discussões nos comentários raramente terminam com alguém dizendo “você tem razão”. O papel exato dos algoritmos nessa história ainda é debatido entre os pesquisadores, e é prudente desconfiar de quem afirma ter a resposta completa.
Há ainda uma diferença simples entre a mesa de almoço e a tela. Na mesa, a outra pessoa tem rosto, voz, história e cheiro de café. Na tela, ela vira um avatar, e é muito mais fácil ser cruel com um avatar do que com o primo que ajudou você a mudar de casa.
Da briga de mesa à violência
Leitura que une os estudos | Caso: Poder360, julho de 2022
Em uma democracia, a eleição existe justamente para processar a divergência sem violência. Cada pessoa vota, a maioria decide, a minoria continua existindo e pode tentar de novo na próxima vez. Quando perdemos isso de vista, o voto deixa de ser uma escolha e vira uma batalha.
Em julho de 2022, em Foz do Iguaçu, no Paraná, o guarda municipal Marcelo Arruda comemorava os 50 anos em uma festa com símbolos da sua preferência política. Segundo a Polícia Civil na época, houve uma discussão com um policial penal federal que apoiava o então presidente, seguida de troca de tiros. Arruda morreu. Políticos de diferentes partidos condenaram o ocorrido. Apurar responsabilidades cabe à Justiça, e aqui o caso serve apenas para mostrar que a escalada, embora rara, é real.
A imensa maioria das pessoas nunca recorreria à violência, e nenhuma divergência a justifica. Mesmo assim, juntando o que vimos até aqui, dá para enxergar como uma discordância comum pode subir de nível, degrau por degrau. Esta é uma leitura nossa, que une os estudos, e não um modelo comprovado por uma única pesquisa.
Como uma discordância sobe de nível
Toque em cada etapa. É uma síntese dos achados apresentados neste texto.
Este é o ponto de partida saudável de qualquer democracia. Aqui a conversa ainda trata de fatos e propostas, e é possível discordar sem se machucar.
Cada degrau tem um remédio correspondente, e eles aparecem na próxima seção. A boa notícia é que a ciência não descreve a hostilidade como destino. Descreve como um processo, e processos podem ser interrompidos.
O que a ciência diz que ajuda
Base: Pettigrew e Tropp, 2006 | Voelkel e colegas, 2024 | Ahler e Sood, 2018
A evidência mais robusta vem de uma meta-análise de 2006, feita por Thomas Pettigrew e Linda Tropp, que reuniu 515 estudos, com cerca de 250 mil participantes em 38 países. A conclusão é que o contato entre grupos, em geral, reduz o preconceito. A correlação média foi de 0,21, e chegou a 0,33 nos experimentos mais rigorosos. O contato funciona principalmente porque reduz a ansiedade e aumenta a empatia, mais do que por acrescentar informação. Pela teoria clássica de Gordon Allport, de 1954, ele funciona melhor quando há igualdade de status, objetivos em comum e cooperação. A família e os amigos, aliás, costumam reunir boa parte dessas condições. Vale lembrar que essa literatura trata de preconceito entre grupos em geral, e aplicá-la à política é uma extrapolação razoável, não uma certeza.
Em 2024, uma equipe liderada por Jan Voelkel publicou na revista Science um megaestudo com 25 intervenções curtas, escolhidas entre 252 ideias, testadas com mais de 32 mil americanos. A grande maioria reduziu a animosidade entre partidários. As mais eficazes mostravam pessoas simpáticas e próximas que pensavam diferente, ou lembravam identidades que os dois lados compartilham. Corrigir percepções erradas sobre o outro lado ajudou principalmente a reduzir o apoio a práticas antidemocráticas. Foram intervenções de poucos minutos, nos Estados Unidos. Elas mostram que a animosidade não é imutável, e não que existe uma solução rápida.
Juntando tudo, o caminho aponta para três atitudes: humanizar quem pensa diferente, checar a caricatura que você carrega e procurar o que vocês têm em comum antes de falar do que os separa. Para transformar isso em prática, preparamos duas ferramentas.
Antes de responder
Cinco perguntas rápidas para fazer antes de digitar ou falar. Marque as que você já consegue responder com sinceridade.
Marque o que for verdade para você hoje.
Frases que fecham e frases que abrem
Toque em cada cartão para ver como a mesma situação pode ganhar outra abertura.
Sugestões práticas inspiradas nos achados sobre curiosidade, humanização e pontos em comum. Não são fórmulas testadas em um estudo específico.
Quando se afastar também é saudável
Aceitar a divergência não significa aceitar desrespeito. Se a relação envolve ofensas repetidas, humilhação, ameaças ou qualquer forma de violência, proteger-se é legítimo, e uma pausa pode ser o gesto mais responsável. Nem toda conversa precisa acontecer, e nem toda discordância precisa ser vencida.
Perguntas frequentes
Aceitar quem pensa diferente significa concordar com a pessoa?
Não. Aceitar é reconhecer que a outra pessoa tem o direito de pensar e votar diferente, e que continua sendo alguém digna de respeito. Você pode discordar com firmeza e manter o vínculo. A democracia depende exatamente dessa distinção.
Vale a pena tentar convencer alguém em época de eleição?
Os estudos que vimos sugerem que, no calor da hora, argumentos raramente mudam a posição de alguém, e que a hostilidade cresce quando a pessoa se sente atacada. Se a prioridade é preservar a relação, conversar com curiosidade costuma render mais do que tentar vencer a discussão.
E se o outro lado realmente agir de má-fé?
Isso pode acontecer, e a pesquisa não diz que todo mundo está sempre de boa-fé. O que ela mostra é que superestimamos o quanto o outro lado é extremo ou mal-intencionado. Vale checar, caso a caso, se a imagem que você tem vem de uma pessoa real ou de uma caricatura.
A eleição acaba. A família continua.
Votar diferente faz parte do pacto democrático. Ninguém precisa abrir mão de suas convicções para manter uma amizade, e ninguém precisa transformar uma amizade em campo de batalha para defender suas convicções. Entre esses dois extremos existe um espaço grande, onde cabem perguntas, pausas, silêncio respeitoso e o pudim dividido no fim do almoço.
Que a gente consiga discordar sem deixar de enxergar o rosto de quem está do outro lado da mesa.
Chicca Trends
Fontes
- Instituto Informa. Panorama Eleitoral Brasileiro, 21 de maio a 7 de junho de 2026, divulgado em 19 de julho de 2026. Reportagem: Mais Goiás.
- Tajfel, H., Billig, M. G., Bundy, R. P. e Flament, C. (1971). Social categorization and intergroup behaviour. European Journal of Social Psychology, 1(2), 149-178.
- Iyengar, S. e Westwood, S. J. (2015). Fear and Loathing across Party Lines: New Evidence on Group Polarization. American Journal of Political Science, 59(3), 690-707. Registro.
- Kaplan, J. T., Gimbel, S. I. e Harris, S. (2016). Neural correlates of maintaining one’s political beliefs in the face of counterevidence. Scientific Reports. Texto completo.
- Haidt, J. (2012). The Righteous Mind: Why Good People Are Divided by Politics and Religion. Pantheon.
- Ahler, D. J. e Sood, G. (2018). The Parties in Our Heads: Misperceptions about Party Composition and Their Consequences. The Journal of Politics, 80(3). Artigo.
- Kahan, D. M., Peters, E., Dawson, E. C. e Slovic, P. (2017). Motivated numeracy and enlightened self-government. Behavioural Public Policy, 1(1), 54-86. Resumo.
- Nyhan, B. e Reifler, J. (2010). When Corrections Fail: The Persistence of Political Misperceptions. Political Behavior, 32. Wood, T. e Porter, E. (2019). The Elusive Backfire Effect: Mass Attitudes’ Steadfast Factual Adherence. Political Behavior, 41.
- Bail, C. A. e colegas (2018). Exposure to opposing views on social media can increase political polarization. Proceedings of the National Academy of Sciences.
- Poder360 (10 de julho de 2022). Políticos lamentam morte em festa no Paraná.
- Pettigrew, T. F. e Tropp, L. R. (2006). A meta-analytic test of intergroup contact theory. Journal of Personality and Social Psychology, 90(5), 751-783. PubMed. Allport, G. W. (1954). The Nature of Prejudice. Addison-Wesley.
- Voelkel, J. G. e colegas (2024). Megastudy testing 25 treatments to reduce antidemocratic attitudes and partisan animosity. Science. Resumo.
- Francisco (2020). Carta encíclica Fratelli Tutti, sobre a fraternidade e a amizade social. Santa Sé.
